As células-tronco se consagram como uma alternativa para recuperar a visão de quem sofre com as principais causas de cegueira do mundo, que são: a retinose pigmentar (doença degenerativa hereditária da retina), a degeneração macular senil e a retinopatia diabética. A boa notícia acaba de ser publicada no jornal científico Acta Ophtalmologica, após um trabalho, desenvolvido com cerca de 50 pacientes vítimas de uma das doenças acima, pelo oftalmologista Rubens de Camargo Siqueira, de Rio Preto, em parceria com pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP).
Desde 2009, eles avaliam os efeitos da implantação de células-tronco autólogas (da própria pessoa), no controle destas doenças. Desta vez, o artigo publicado traz os bons resultados obtidos com a aplicação das tais células em portadores de retinopatia e degeneração. “Os resultados para o implante das células em degeneração macular relacionada com a idade vai sair só no início do próximo ano. Mas, já observamos os resultados iniciais da retinopatia diabética e por isto, já publicamos em um jornal científico europeu especializado”, diz o pesquisador.

Siqueira afirma que existem diversos tipos de células-tronco com funções e mecanismos diferentes. “Esta, que estamos usando, é muito bem conhecida pois já é utilizada há mais de 40 anos pelos hematologistas para tratamento de doenças hematológicas como a leucemia. Estas células-tronco derivadas da medula óssea são consideradas adultas e não possuem um grande potencial de transformação (diferenciação) como as células-tronco embrionárias, mas possuem segurança, pois como são do próprio paciente não apresentam rejeição e nem risco de gerar tumor”, explica.

No caso da retinopatia diabética, embora as células não substituam as células da retina que foram perdidas, elas produzem várias substâncias como fatores de crescimento, neurotróficos, mecanismo este denominado de efeito parácrino, que melhoram a sobrevida das células da retina e seu funcionamento, o que poderia gerar uma recuperação funcional.

Resultados no final do ano

O oftalmologista Rubens Camargo Siqueira, de Rio Preto, afirma que os protocolos de pesquisas iniciados há cinco anos, com as células-tronco derivadas da medula óssea do próprio paciente (autólogas), foram com o objetivo de tratar a retinose pigmentar, que é uma doença degenerativa hereditária da retina e que leva com o passar dos anos a uma baixa significativa da visão e muitas vezes a cegueira.

“Este primeiro grupo nós praticamente terminamos a pesquisa e estamos realizando análise final dos resultados que serão publicados no final deste ano”, diz Siqueira. Primeira brasileira a receber o implante de células-tronco, há cinco anos, foi a psicóloga Fernanda Fernandes, 27 anos, com objetivo de combater a retinose pigmentar. Ela se diz satisfeita com os avanços obtidos, embora reconheça ainda ter uma distância a ser percorrida para reverter as perdas já ocorridas antes da aplicação.

“Fiz uso das células-tronco e trata-se de um futuro tratamento, muito eficaz, muito bom. Fiz duas aplicações primeiro no olho esquerdo e obtive algumas melhoras, em princípio. Mas, o importante é que estas melhoras permanecem até hoje e neste olho não tive mais perdas. Já no olho direito, que fiz apenas uma aplicação em 2012 e estava muito pior que o esquerdo, ainda não teve melhora. Engraçado que este olho, antes era o meu melhor olho. Acho que demoramos muito para fazer”, relata.

‘Consigo enxergar’

Só quem é vítima sabe a importância de qualquer avanço em relação a uma destas doenças. É o que relata o carioca Manoel Eleuterio, de 68 anos, analista de sistemas aposentado, que há quatro meses se submeteu pela primeira vez a aplicação das células-tronco em ambos os olhos, para tentar reverter a degeneração da mácula.

Neste período, ele já comemora cerca de 20% da recuperação da visão. “Já não enxergava mais nada, nem os rostos na televisão, tanto que comprei uma televisão imensa e não adiantou de nada. Com a cirurgia já consigo enxergar melhor e tenho certeza que vai recuperar mais a cada dia.”

Retinopatia diabética pode ser prevenida com exames

Pessoas diagnosticadas com a retinopatia diabética, que chega a atingir 35% dos portadores de diabetes, mesmo com a doença sob controle, tem um elevado risco de perder a visão. Sabe-se que quem tem a doença há mais de 15 anos, apresenta em 90% dos casos alguma alteração nos vasos sanguíneos.
Sendo assim, o Instituto da Visão, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), realiza mutirão para diagnóstico precoce há alguns anos, para evitar esta que é uma complicação crônica do diabetes mellitus frente a má circulação na retina, estrutura do olho responsável por transformar a luz em imagens.

Em 8% das vítimas há o risco de perder a visão se não tiverem acesso a exames e tratamento. Exames preventivos como a retinografia são importantes. Ele é eficaz para o diagnóstico e o tratamento das doenças oculares, documentando anormalidades e evolução de lesões suspeitas, além de acompanhar a eficácia de tratamentos. Ela registra a imagem da retina e do nervo óptico, que analisa as estruturas da retina, coróide e vasos retinianos, por meio de fotos tiradas com uma iluminação especial e com o uso de filtros, e avalia doenças como retinopatia diabética, oclusões vasculares da retina e degeneração macular.

Disponível no Centro Oftalmológico Humanizado de Referência, de Rio Preto, o retinógrafo 3D -Nonmyd WX3D realiza o exame e é indicado também para análise de fundo de olho. “O exame faz uma foto em 3D do nervo óptico, que é muito importante para o diagnóstico e acompanhamento de doenças como o glaucoma, uma doença silenciosa, que leva a perda da visão, e não pode ser revertida. O grande diferencial é não precisar dilatar a pupila para realizá-lo”, explica o oftalmologista.

Uma vez que a doença é diagnosticada no início, é possível recorrer a uma das várias opções de tratamento para retinopatia diabética, antes das células tronco. Dentre elas, o pesquisador Rubens Siqueira destaca a tradicional fotocoagulação a laser, injeção ocular de medicamentos denominados antiangiogênicos (Avastin, Lucentis e Eylea), a injeção intraocular de corticóides (triancinolona) e o implante intraocular biodegradável (Ozurdex), além de cirurgia de vitrectomia.

Entretanto, Siqueira afirma que todas estas modalidades terapêuticas conseguem resolver situações de hemorragia e edema (inchaço) da retina, mas são solucionam a isquemia, ou seja, o infarto da retina. “Até o momento não existe tratamento que consiga reverter a visão nos casos em que apresentam obstrução dos vasos da retina. Por isso iniciamos a pesquisa com células tronco para tentar restaurar o funcionamento desta área da retina danificada pela má circulação do sangue”, explica.

Entenda melhor

Como é feita a aplicação das células-tronco

:: O procedimento é realizado em uma unidade especial de transplante de medula óssea e requer primeiramente que o paciente seja avaliado pelo hematologista que por meio de exames laboratoriais e clínico identificará se o paciente estará apto a realizar o procedimento

:: O paciente é submetido a coleta da medula óssea que é feita pelo hematologista sob anestesia local (utiliza-se comumente o osso da bacia que possui mais quantidade de medula óssea e é de mais fácil coleta). Como na oftalmologia utilizamos pouca quantidade para injetar no olho, o procedimento da coleta é mais tranquilo que para outras doenças.

:: Após a coleta, uma pequena quantidade de medula óssea é então levada ao laboratório especializado onde por meio de um equipamento especial se separa as células-tronco para serem colocadas em um injetor especial

:: No mesmo dia, que são retiradas as células-tronco são injetadas dentro do olho com anestesia local e o paciente tem alta no mesmo dia sem necessidade de internação.

Saiba Mais

:: A retinopatia diabética é a terceira causa de cegueira em adultos, no Brasil, sendo a principal em pessoas em idade produtiva (16 a 64 anos)

:: É uma das complicações mais comuns da diabetes mellitus, encontrada, após 20 anos, em mais de 90% nos portadores da diabetes tipo 1 e, em 50% – 80% nos portadores do tipo 2, tendo aumentado bastante a incidência com o crescimento da expectativa de vida dos pacientes

:: As alterações vasculares da retina costumam progredir de modo semelhante em outros órgãos como rim, coração e cérebro, de modo que a retinopatia têm correlação direta com a sobrevida desses pacientes

 

FONTE: Diário Web

São José do Rio Preto, 27 de Setembro, 2014